Índia Ysani Kalapalo trai seu povo ao tomar partido por Bolsonaro que defende extinção de demarcações de terra e desmatamento

Ysani Kalapalo e o Pajé Xeromoin Awdju Pitotó durante Sessão Solene na Câmara de Vereadores de Ribeirão Pires

Em matéria feito pelo Repórter ABC/Caso de Política em 20 de abril de 2018, a Câmara de Ribeirão Pires por ocasião do Dia do Índio realizou uma Sessão Solene. Ver aqui

Entre os homenageados estava a polêmica índia  Ysani Aweti Kalapalo da tribo Xinguana localizada na reservado do Alto Xingú no Mato Grosso.

Diferentemente da sua atual postura política em que apoia o presidente Jair Bolsonaro que pretende não mais ampliar o número de marcação de terras ao mesmo tempo que ameaça extinguir as já existente, durante a sua fala, Ysani argumentou que que se a luta tiver partido ela se divide e que a luta é o partido do povo indígena.

“Eu entrei pra luta desde que era adolescente. Somos ensinados a defender a nossa nação desde pequenos. A nossa maneira de viver é diferente a de vocês, somos ensinados a adquirir responsabilidade desde muito cedo. Hoje a minha luta é mais na parte da educação. Dou palestras em universidades e organizações. Eu gosto de dizer que o nosso movimento indígena não deve ter partido. Acreditamos que se ela [luta] tiver partido ela se divide. O nosso partido é a nossa luta e a nossa própria causa. Eu me orgulho muito disso”.

Ver vídeo abaixo

Diante de sua partidarização política Ysani Kalapalo enfrenta duras crítica dos mais diversos povos indígenas, inclusive hostilizada em sua própria tribo.

Apesar de ser apontada pelo governo Bolsonaro como representante de povos do Xingu, Kalapalo é repudiada em nota assinada por caciques e também por organizações indígenas. Veja ao final da matéria a íntegra da carta de repúdio de povos indígenas do Xingu.

Em discurso na ONU nesta terça-feira (24), presidente destacou relevância de sua aliada para criticar o histórico cacique Raoni: “Acabou o monopólio do senhor Raoni”.

Na oportunidade, Ysani Kalapalo foi chancelada pelo presidente como a representante dos povos indígenas brasileiros a ser ouvida pela comunidade internacional.

A ênfase na relevância de Ysani teve relação com as críticas do cacique Raoni Metuktire ao governo brasileiro, feitas durante o encontro do G7 em Biarritz, França, em agosto passado.

Uma carta lida por Bolsonaro e que teria o aval de 52 povos indígenas menciona que “Ysani goza de confiança e prestígio das lideranças indígenas interessadas em desenvolvimento, empoderamento e protagonismo, estando apta a representar as etnias relacionadas [na carta]”. Ao fim da leitura, Bolsonaro concluiu: “Acabou o monopólio do senhor Raoni”.

Convidada a participar da comitiva do governo brasileiro na Assembleia Geral da ONU, a índia natural do Alto Xingu se descreve como “indígena de direta” e não escondeu seu entusiasmo com o convite. Já compartilhou com seguidores um registro chegando à cidade e uma foto ao lado do presidente Jair Bolsonaro.

“Aqui com o ministro general Heleno e a primeira-dama. É ‘nóis’ em Nova York , caminhando, de boa”, disse ela, durante um vídeo gravado enquanto andava pelas ruas da metrópole americana e publicado nas redes sociais na noite desta segunda-feira.

A representatividade de Ysani, no entanto, é questionada por lideranças do Xingu . Caciques de 16 povos indígenas da região divulgaram um manifesto contra a sua participação na viagem. O documento diz que “o governo brasileiro ofende as lideranças ao dar destaque a uma indígena que vem atuando constantemente em redes sociais com objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil”. O cacique Tafukuma Kalapalo, líder da tribo indígena da qual a jovem faz parte, é o primeiro a assinar o protesto contra ela.

Ysani é ferrenha defensora do governo e apoia Bolsonaro desde a campanha eleitoral de 2018. Em um encontro em outubro do ano passado, na casa do então candidato, no Rio de Janeiro, ela aprovou promessas para os povos indígenas como distribuição de “royalties de minérios extraídos de terras indígenas, exploração da biodiversidade e até royalties de possíveis hidrelétricas que poderiam ser construídas em terras indígenas”. A última proposta merece destaque, já que entre os anos de 2011 e 2013, Ysani ficou nacionalmente conhecida por liderar manifestações contra a construção da Usina de Belo Monte, no Pará, quando criou o “Movimento Indígenas em Ação”.

CARTA DE REPÚDIO
CONTRA REPRESENTAÇÃO INDÍGENA NA DELEGAÇÃO DO GOVERNO BRASILEIRO NA ONU

Nós representantes maiores dos 16 povos indígenas habitantes do Território Indígena do Xingu (Aweti, Matipu, Mehinako, Kamaiurá, Kuikuro, Kisedje, Ikpeng, Yudjá, Kawaiweté, Kalapalo, Narovuto, Waurá, Yawalapiti, Trumai, Nafukuá e Tapayuna), viemos diante da sociedade brasileira repudiar a intenção do Governo Brasileiro de incluir a indígena Ysani Kalapalo na delegação oficial do Brasil que participará da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU que será realizada na cidade de Nova Iorque no próximo dia 23 de setembro de 2019.

O governo brasileiro mais uma vez demonstra com essa atitude o desrespeito com os povos e lideranças indígenas renomados do Xingu e outras lideranças a nível nacional, desrespeitando a autonomia própria das organizações dos povos indígenas de decisão e indicação de seus representantes em eventos nacionais e internacionais.

O governo brasileiro ofende as lideranças indígenas do Xingu e do Brasil ao dar destaque a uma indígena que vem atuando constantemente em redes sociais com objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil.

Os 16 povos indígenas do Território Indígena do Xingu através de seus caciques reafirmam seu direito de autonomia de decisão através de seu próprio sistema de governança composto por todos os principais caciques dos povos xinguanos.

O governo brasileiro não se contentando com os ataques aos povos indígenas do Brasil, agora quer legitimar sua política anti-indígena usando uma figura indígena simpatizante de suas ideologias radicais com a intenção de convencer a comunidade internacional de sua política colonialista e etnocida.

Não aceitamos e nunca aceitaremos que o governo brasileiro indique por conta própria nossa representação indígena sem nos consultar através de nossas organizações e lideranças reconhecidos e respaldados por nós.

Atestam esta carta:

Tafukuma Kalapalo / Cacique do Povo Kalapalo

Aritana Yawalapiti / Cacique do Povo Yawalapiti

Afukaká Kuikuro / Cacique do Povo Kuikuro

Kotok Kamaiurá / Cacique do Povo Kamaiurá

Atakaho waurá / Cacique do povo Wauja

Tirefé Nafukuá / Cacique do Povo Nafukua

Arifira Matipu / Cacique do Povo Matipu

Awajatu Aweti / Cacique do Povo Aweti

Mayukuti Mehinako / Cacique do Povo Mehinako

Kowo Trumai / Cacique do Povo Trumai

Melobo Ikpeng / Cacique do Povo Ikpeng

Kuiussi Suya / Cacique do Povo Kisedje

Sadeá Yudjá / Cacique do Povo Yudja

Mairawe Kaiabi / Cacique do Povo Kawaiwete

Associação Terra Indígena Xingu – ATIX

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