Conselheiro do banco Itaú cria Partido: O Novo

247 – Está em criação no Brasil um partido que se assume à direita do PSDB. O Novo, idealizado por João Amoedo, ligado ao Itaú, traz slogans como “pessoas iguais a você” e “o partido político sem políticos” e visa tentar fugir da “hegemonia de esquerda” hoje em voga no País, como define o economista Rodrigo Constantino, presidente do Instituto Liberal e parte do grupo de apoiadores da legenda formado por expoentes da nova direita.
página do partido no Facebook já reúne mais de 360 mil fãs, número incomparável com o conquistado pela Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, que até hoje tem apenas pouco mais de 1.800 fãs na rede social. Caso o partido não seja registrado a tempo de lançar uma candidatura em 2014, seus integrantes defendem o senador Aécio Neves, do PSDB, como a melhor opção para assumir a presidência no lugar de Dilma Rousseff.


Entre os principais pontos do discurso do Novo está a defesa de que o Estado deve sair de setores como petróleo, estradas e bancos – privatizando, desta forma, estatais como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras. Para Amoedo, “não faz sentido nenhum” a existência de um “Estado empresário”, uma vez que ele “já cuida mal” de assuntos que são de sua obrigação, como saúde e educação. Amoedo condena o estado grande, o mesmo que acaba de multar o Itaú em R$ 18,7 bilhões.
“Não tem por que [o Estado] estar se metendo em exploração de petróleo, em manutenção de estradas, em bancos. Não tem por que o Estado estar nisso. Então nós somos totalmente a favor de o Estado privatizar essas áreas, diminuir a sua atuação e focar naquilo que dificilmente a iniciativa privada vai conseguir fazer”, expõe o presidente da futura legenda, numa entrevista a Rodrigo Constantino, em sua coluna na revista Veja.
O partido prega que ficariam, então, nas mãos do Estado, a preservação da moeda, a educação básica, a segurança, a defesa de fronteiras e a saúde – esta última área, segundo Amoedo, ainda poderia ser desenvolvida um pouco mais pela iniciativa privada. A legenda também é contra o programa Bolsa Família – definido como “caridade” pelo conselheiro do Itaú – e as cotas raciais, outra coisa que “não faz sentido”.
Ouça a entrevista de Amoedo concedida a Constantino e, abaixo, um pingue e pongue com o presidente do Novo publicado pela revista Época em junho de 2011. 

João Dionísio Amoedo: “Nossos candidatos terão metas de gestão”

JOÃO DIONÍSIO AMOEDO – QUEM É

Engenheiro e administrador de 48 anos que atua desde 1988 no mercado financeiro. Foi sócio do BBA e vice-presidente e membro do conselho do Unibanco. Hoje, é conselheiro do Itaú-BBA e da João Fortes Engenharia. É sócio da Casa das Garças, centro de estudos de tendência liberal no Rio de Janeiro.

RICARDO MENDONÇA
João Dionísio Amoedo começou sua carreira como estagiário do Citibank, em 1988, e chegou ao posto de banqueiro, como sócio do BBA, membro do conselho do Unibanco e, agora, conselheiro do Itaú-BBA. Há cerca de um ano, tomou uma decisão inusitada. Com alguns amigos do mercado, resolveu criar um partido para defender os princípios da gestão e de um Estado menor. Ele diz ter recebido incentivo de alguns dos mais conhecidos nomes do setor, como os banqueiros Pedro Moreira Salles e Fernão Bracher, além do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Entusiasmado, chamou o escritório Pinheiro Neto, um dos mais tradicionais do país, para a confecção do estatuto. E contratou empresas de marketing para coletar assinaturas. Se o Novo (nome do partido) conseguir 500 mil até outubro, disputará prefeituras em 2012.

ÉPOCA – O Brasil tem 27 partidos políticos hoje. Não é suficiente?
João Dionísio Amoedo – Tem bastante, não há dúvida. Mas temos a sensação de que ainda não é suficiente porque não há uma representatividade ideal da sociedade civil nesses partidos. Talvez por falta de uma identificação mais clara sobre os objetivos de cada um. Não identificamos em nenhum partido o objetivo de melhoria da gestão pública como foco principal.

ÉPOCA – Quais são os diferenciais do Novo?
Amoedo – O primeiro é o fato de começar de um movimento da sociedade civil. Diferentemente de todos os outros, que nasceram com políticos.

ÉPOCA – O PT nasceu de um movimento da sociedade civil, não?
Amoedo – É… Não era um grupo político. Mas já tinha uma identificação clara por ser de um grupo específico, não é? E surgiu há 30 anos. Nos últimos dez ou 15 anos, não lembro de nenhum. Acho que o exemplo do PT é importante até como lembrança do último partido que não nasceu já com algum político.

ÉPOCA – O que mais distingue o Novo?
Amoedo – Outra diferenciação é deixar bem claro no estatuto qual é seu papel. O partido tem o dever e a obrigação de, primeiro, selecionar seus candidatos. Segundo, dar suporte ao candidato, na fase inicial e depois de eleito. Suporte técnico, digo. E a terceira coisa é cobrar: nossos candidatos terão metas de gestão, o que não vi em nenhum outro partido.

ÉPOCA – Há mais novidades?
Amoedo – O último ponto importante é diferenciar a gestão partidária da atuação parlamentar ou executiva. Entendemos que as duas figuras não podem se confundir. Uma coisa é ser dirigente do partido e ter todas as obrigações que mencionei. Outra é ser deputado, vereador, prefeito e ter atuação no âmbito do governo. O partido tem de fiscalizar e monitorar quem ele elegeu. Se essa figura se confunde, você acaba gerando um conflito de interesses.

ÉPOCA – E a atuação simultânea em cargo eletivo e na iniciativa privada pode?
Amoedo – Olha… Acho que não faz muito sentido… Acho que as atividades têm de ser bastante segregadas.

ÉPOCA – Isso vocês não colocaram? Pode ter cargo e ser consultor, por exemplo?
Amoedo – Eu acho que nós não colocamos isso no estatuto. Tem o conselho de ética, nós colocamos, certamente, que o candidato tem de estar dentro das regras, mas acho que nós não fomos tão explícitos nisso. Talvez agora devamos ser mais explícitos. Isso seria uma coisa básica da ética, do entendimento de cada um. A gente vai aprendendo… Talvez algumas coisas tenham de ser explícitas para depois não ter questionamento.

ÉPOCA – Vai incorporar essa ideia, então?
Amoedo – Certamente. Porque é difícil você ter as duas atividades sem criar algum tipo de conflito. Há outro diferencial: somos contra mais de uma reeleição para o mesmo cargo no Legislativo.

ÉPOCA – Por quê?
Amoedo – Se alguém esteve oito anos como deputado estadual, pode até ser federal na próxima eleição, senador, mas não mais deputado estadual. É para promover a renovação. Senão, você terá um deputado estadual por 16, 20 anos. Estará bloqueando a entrada de novas pessoas. Com oito anos, já teve tempo para dar sua contribuição. E aquilo não deve se tornar uma profissão.

ÉPOCA – No meio político, o tema “gestão” costuma ser mais associado ao PSDB e ao DEM. Eles não dão conta do recado?
Amoedo – Não está muito claro. Acho que esse tema não está muito ligado a partidos. Pense no caso dos governadores. Três estão ligados nisso. Tem lá em Minas, que é o PSDB, em Pernambuco, que é PSB, e no Rio PMDB. Então isso está muito mais ligado ao entendimento do político do que propriamente a um programa partidário. O que queremos é que o partido tenha isso. 

Gostaríamos de levar conceitos básicos do mundo privado para o público. (…) por exemplo, a ideia de que os recursos são escassos


ÉPOCA – O que quer dizer “o partido político sem políticos”, slogan do site do Novo?

Amoedo – Eu não diria que não queremos políticos agora, isso seria muito forte. Eu diria o seguinte: como o mais importante, em nosso caso, é que as pessoas que nunca se envolveram com política participem, e como a atividade política tem um desgaste, não atrai, seria mais fácil para essas pessoas participarem de um partido que não tem políticos no primeiro momento.


ÉPOCA – Um vídeo no site fala em tratar o governo como uma empresa e o eleitor como cliente. Essa ideia de administração pública não parece muito simplista?
Amoedo – Gostaríamos com isso de levar conceitos básicos do mundo privado para o mundo público. Mesmo sabendo que horizontes de tempo, o público e as necessidades são bastante diferentes. Mas acho que há conceitos que podem ser aplicados no segmento público. Por exemplo, a ideia de que os recursos são escassos. Assim, você tem de estabelecer prioridades. Segundo: qualquer despesa adicional tem contrapartida, custos, não é? Terceiro: você tem de ser transparente na gestão. Quarto: tem de ter metas, prestar contas. Então são esses tipos de conceito que gostaríamos de ver no setor público. E a ideia da pessoa como cliente é só para deixar clara uma coisa: o governo funciona com os impostos que nós pagamos, então nada mais justo que ter as contrapartidas. A ideia é que a pessoa deve cobrar isso do governo, como cobra de uma empresa que presta um serviço pelo qual pagou.

ÉPOCA – O Novo tem posição sobre temas da atual agenda política, como Belo Monte, lei anti-homofobia, Código Florestal?
Amoedo – Estamos começando a nos posicionar sobre algumas coisas. Mas, como estamos ainda em formação, temos a preocupação de não ter assuntos muito definidos, pois atrapalhariam o objetivo de atrair pessoas. É estranho você pedir participação, mas já ter temas fechados. Mas há alguns princípios básicos. Entendemos que o Estado deve ter uma atuação menor na sociedade. Entendemos também que há outras prioridades, quando falamos em kit homofobia, por exemplo. Existem outras prioridades, como educação, saúde e segurança.

ÉPOCA – Um kit contra a homofobia pode estar relacionado com as duas coisas, educação e segurança, não?
Amoedo – Ah, pode. Mas a dúvida é a seguinte: vale a pena? Admitindo que os recursos são escassos e finitos, vamos gastar dinheiro nisso? Ou melhorar a qualidade das escolas, o sistema de avaliação e a remuneração dos professores?

ÉPOCA – Para viabilizar o partido, serão necessárias cerca de 500 mil assinaturas. Em que estágio vocês estão?
Amoedo – É um processo trabalhoso e burocrático, pois você precisa das assinaturas, nome completo e título de eleitor. E depois precisa validar nos cartórios. Temos hoje fichas de todo tipo, pessoas que assinaram, mas que têm dados incompletos; ficha completa, mas com incompatibilidade de assinatura. De maneira geral, estamos próximos de 200 mil.

ÉPOCA – É difícil convencer as pessoas a assinar pela criação de mais um partido?
Amoedo – De cada 100 pessoas abordadas, 30 assinam. Essa é a média.

ÉPOCA – Quem está fazendo essa coleta?
Amoedo – Fazemos pela internet. Alguns nos procuram e pedem um lote para distribuir entre amigos e parentes. E contratamos umas três ou quatro empresas que fazem a divulgação e o marketing. São elas que fazem a abordagem em rua.

ÉPOCA – Quanto vocês já investiram na criação desse partido?
Amoedo – Entre divulgação, site e consultoria jurídica, deu quase R$ 1 milhão. Meu e do grupo inicial. Mas vai passar disso.

ÉPOCA – Em sua avaliação, o Novo é um partido de esquerda, de centro ou de direita?
Amoedo – Discutimos muito isso. Essa classificação, que no passado foi mais clara, não ajuda muito hoje. Entre os 27 partidos, é difícil dizer o que é direita, centro ou esquerda. Nossa ideologia é focar na gestão e ter o Estado menor. Eu diria que nos aproximamos mais de um partido de centro, ou centro-direita.

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