Setores do PSDB criticam reformas e defendem rompimento com Temer.

Mesmo com o PSDB integrando a base do governo Michel Temer e apoiando suas reformas, uma ala interna do partido, chamada ‘Esquerda Para Valer’, é contrária às propostas e defende o rompimento da legenda com o Planalto. O movimento tem entre suas lideranças o ex-governador paulista Alberto Goldman.

A ala tucana publicou um texto na noite desta segunda-feira 1º, quando se encerrou um congresso de líderes, que aponta que as reformas de Temer “aprofundam o abismo da desigualdade social e a agenda política nacional parece atender prioritariamente aos interesses das elites financeiras do país”.

“É necessário que o PSDB retome sua postura histórica através de compromisso com um novo projeto de desenvolvimento nacional que promova o crescimento, amplie direitos e reduza as desigualdades”, diz o texto. “Mais do que nunca é necessário retornarmos às nossas origens. Nosso contexto atual não permite que o PSDB se furte ao diálogo com o Brasil e com a nossa militância”, aponta ainda o movimento.

Na avaliação do ‘Esquerda Para Valer’, “o governo Temer não cumpriu e não demonstra interesse em cumprir a carta apresentada pelo PSDB ‘Princípios e valores para um novo Brasil’ como condição inegociável para a adesão ao governo federal”. Leia abaixo a íntegra do manifesto:

Congresso de Líderes do Movimento Esquerda Pra Valer – 2017
29 de abril – 1° de maio

Carta de Mairiporã

Mairiporã, 1º de Maio de 2017

O “Movimento EPV – Esquerda Pra Valer”, criado em 2004, tem como objetivo defender os fundamentos social-democráticos do PSDB e aplicá-lo à nossa realidade contemporânea.

Como tendência partidária, reconhecemos o papel fundamental do Estado como um instrumento de justiça social e a proposta da social democracia como o caminho mais curto para a transformação positiva da sociedade.

O Brasil vive um tempo de retrocessos sociais. As reformas propostas aprofundam o abismo da desigualdade social e a agenda política nacional parece atender prioritariamente aos interesses das elites financeiras do país. A sociedade brasileira se polariza, abrindo espaço para o ódio. Mais uma vez, a parte mais pobre da sociedade pode pagar o preço amargo do descaminho político que nos encontramos.

Enfrentamos uma grave crise institucional e um processo político de destituição presidencial entremeado pelo discurso de retomada do crescimento e contra a corrupção – mas que na prática, não conseguiu se reconciliar nem atender os anseios do povo brasileiro. O novo “velho” governo manteve a estrutura fisiológica e clientelista do período lulopetista e se tornou cada vez mais associado ao interesse escuso das elites, apresentando suas reformas como o único caminho viável para o Brasil.

É necessário que o PSDB retome sua postura histórica através de compromisso com um novo projeto de desenvolvimento nacional que promova o crescimento, amplie direitos e reduza as desigualdades. Em tempo, o caminho para a democracia plena passa prioritariamente por uma ampla reforma política e pelo Parlamentarismo.

Mais do que nunca é necessário retornarmos às nossas origens. Nosso contexto atual não permite que o PSDB se furte ao diálogo com o Brasil e com a nossa militância. Como tendência partidária, reconhecemos a relevância pedagógica do debate e da contrastação das ideias como parte necessária de nosso cotidiano.

Nosso congresso se encerra nesse 1º de maio – dia simbólico à causa operária mundial. Essa data torna fundamental relembrar com a clareza necessária que estar ao lado dos trabalhadores é um de nossos principais postulados partidários.

A proposta da reforma trabalhista, construída sem a necessária discussão democrática, é fundamentada na redução de direitos e na precarização das condições de vida dos trabalhadores, portanto inconsistente com o relevante histórico de contribuição do PSDB nesta causa.

O manifesto ao povo brasileiro, texto de princípios e objetivos que levaram a fundação do PSDB nos esclarece. O partido deve apoiar as justas reivindicações dos trabalhadores, assegurada a livre negociação com sindicatos autônomos e os meios próprios de luta dos assalariados, inclusive a greve, sem interferência do Estado.

Essa mesma premissa é explicada muitas outras vezes por nossas lideranças históricas. O presidente Fernando Henrique Cardoso nos ensina que ser socialdemocrata é antes de tudo ter compromisso com os trabalhadores.

Consideramos ainda que as alterações propostas da seguridade social e o congelamento dos gastos públicos devem passar necessariamente pela via do diálogo com a sociedade. Embora temas urgentes para a política nacional, a forma como foi apresentada pelo governo amplia a desigualdade, desconsidera o impacto social e não representa os anseios da população.

O PSDB deve reassumir seu protagonismo e a responsabilidade na construção de um Brasil mais justo. Para isso, não podemos coadunar com ações que amplifiquem privilégios e aumentem o abismo da desigualdade. Uma postura crítica ao governo federal é necessária e será interpretada como um ato de solidariedade ao povo brasileiro.

Vale ressaltar que o governo Temer, não cumpriu e não demonstra interesse em cumprir a carta apresentada pelo PSDB “Princípios e valores para um novo Brasil” como condição inegociável para a adesão ao governo federal. Temas essenciais ao nosso partido e especificamente relacionados, como o combate irrestrito à corrupção e a reforma política imediata foram substituídos por uma agenda política sem transparência e de subtração de direitos.

Como reflexão interna, a discrepância entre nossas premissas ideológicas e o posicionamento de algumas lideranças partidárias aponta a necessidade de uma revisão normativa que deve ser realizada e aprovada em um novo congresso partidário.

A ausência do debate impede a discussão sobre quem somos e onde queremos chegar. Somente a democracia interna permitirá esclarecer a linha condutora de nossa atuação política, historicamente pautada no compromisso com o Brasil.

Vale ressaltar, que o PSDB sempre manteve seus posicionamentos em consonância com os direitos humanos, com os princípios da ética e alinhados aos interesses da nação. Em momentos de luta, acreditamos que nossa reinvenção e sobrevivência passam pela revisitação destes mesmos princípios fundamentais. A luta é – e sempre será – nosso grande instrumento de transformação.

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